A crise das ciências européias e a fenomenologia transcendental

Da Ontopsicologia

(Redireccionado de Crise das ciências)
Edmund Husserl
Edmund-Husserl.jpg
Nascimento 8 de abril de 1859
Proßnitz, Áustria
Facelimento 26 de abril de 1938 (79 anos)
Friburgo, Alemanha
Escola/tradição Fenomenologia (fundador)
Interesses Filosofia, Epistemologia, Lógica, Psicologia, Ontologia, Matemática
Influências René Descartes, Franz Brentano, Carl Stumpf, Bernard Bolzano, Leibniz, Bernhard Riemann, Rudolf Hermann Lotze, Immanuel Kant
Influenciados Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Jacques Derrida, Emmanuel Lévinas, Rudolf Carnap, Kurt Gödel, Eugen Fink, Oskar Becker, Hermann Weyl, Antonio Meneghetti
Biografia Husserl Page

Índice

Introdução

A "Crise", de 1936, é uma das mais importantes e intricadas obras do filósofo alemão Edmund Husserl.

Trata-se de uma obra significativa no desenvolvimento de Husserl por causa da elaboração do conceito de "mundo-da-vida" (Lebenswelt), mas, além disso, o texto contém uma dimensão adicional, igualmente inovadora: é a primeira publicação na qual Husserl toma expressamente uma posição sobre a história e na qual trata o problema da historicidade da filosofia, empreendendo longas análises histórico-teleológicas.

Porém, antes de compreender porque é possível falar de uma "crise das ciências", porque, para Husserl, a lógica, a matemática e a física ainda precisassem de um fundamento último, e, finalmente, porque, para ele, a filosofia é a ciência capaz de prover este fundamento, o primeiro passo é compreender a sua noção de "ciência".

As análises histórico-teleológicas ocupam uma posição de destaque na última grande obra de Husserl, correspondendo ao próximo passo "lógico": demonstrar "como", historicamente, tenham-se construído os equívocos da filosofia e da ciência. Husserl analisa a teleologia ínsita no percurso histórico da filosofia na busca de um fundamento definitivo, o qual, não fora corretamente capturado pelas duas principais posições da filosofia moderna: o objetivismo fisicalista e o subjetivismo transcendental.

Tal percurso conduz a filosofia à necessidade de uma tarefa específica, que é a fenomenologia. Esta é chamada a realizar o empreendimento de uma análise intencional da consciência constitutiva do mundo, a qual desvelará pela primeira vez como tema filosófico o "mundo-da-vida", o qual surge como fundamento de todas as ciências: filosofia, lógica, matemática, ciências naturais etc.

A noção de "mundo-da-vida” foi objeto de minuciosas considerações segundo algumas perspectivas:

No que se refere ao problema das “vias” para a redução fenomenológica transcendental, que ocupa a terceira parte da obra, Husserl analisa a "via" do "mundo-da-vida" e a "via" da psicologia, revisando e renovando o método fenomenológico e abandonando a assim chamada "via" cartesiana.

Considerações acerca da situação do texto

Walter Biemel, organizador da primeira edição da "Crise".

Antes de examinar a obra “A crise das ciências européias e a fenomenologia transcendental”, deve-se atentar para o status peculiar desse texto. Trata-se do último grande trabalho do filósofo Edmund Husserl, cujo manuscrito principal remonta a 1935-1936. Husserl trabalhou sobre os problemas pertinentes à “Crise”, segundo o organizador do texto, Walter Biemel, de 1935 a 1937.

O texto encontrou ocasião de ser elaborado a partir de um convite que Husserl recebera para realizar uma conferência no “Wiener Kulturbund”, a qual se realiza em Viena, aos 7 de maio de 1935. O acolhimento foi tal que, sob solicitação geral, Husserl repete-a em 10 de maio. A conferência de Viena foi intitulada “A filosofia na crise da humanidade européia”. Acerca das conferências realizadas em Viena, em uma carta de 10 de julho de 1935, endereçada à Roman Ingarden[1], Husserl escreve:

Em Viena as coisas andaram de modo surpreendente. Havia chegado sem um verdadeiro e próprio manuscrito completo, porque havia adiado a decisão de falar naquela cidade, após postergar as conferências de Praga, e também em seguida a outros obstáculos. Superei o excesso de cansaço e falei em 7 de maio, com um sucesso inesperado. Quanto ao essencial, improvisei. A filosofia e a crise da humanidade européia – Primeira metade: a idéia filosófica da humanidade européia (ou “da cultura grega”) esclarecida em base às suas origens histórico-teleológicas (em base à filosofia). Segunda parte: a causa das crises a partir do final do século XIX, a causa da falência da filosofia, ou seja, das suas ramificações, das ciências particulares modernas – da falência da sua vocação (da sua função teleológica) e fornecer um guia normativo àquele tipo superior de humanidade que, enquanto idéia, deveria historicamente tornar-se a Europa. A primeira parte era uma conferência em si completa e ocupava uma boa hora. Decidi, logo, concluir e desculpar-me pela excessiva amplitude do tema. Mas o público insistiu para que continuasse a falar, e assim, após uma pausa, continuei e também para a segunda parte encontrei um vivaz interesse. Tive que repetir dois dias depois a conferência dupla (e ainda com a sala repleta) – mas foram de novo duas horas e meia. (Hu VI, pp. xiii, xiv)
Eugen Fink, assistente direto de Husserl, transcreveu o manuscrito principal da "Crise"

Em novembro do mesmo ano, proibido de publicar ou falar em público na Alemanha, Husserl realiza, convidado pelo “Cercle Philosophique de Prague pour lês recherches sur l’entendement humain”, duas conferências na Universidade Alemã, e duas na Universidade de Praga, as quais, ampliadas, tornaram-se a “Crise” propriamente dita.

Em 1936, Husserl publica o início do trabalho (partes I e II) no volume I da revista “Philosophia”, em Belgrado, com a seguinte apresentação:

O escrito ao qual dou início com o presente artigo, e que levarei a termo através de uma série de artigos que aparecerão em “Philosophia”, propõe-se a fundar, através de uma consideração histórico-teleológica dos inícios da nossa situação crítica, científica e filosófica, a inevitável necessidade de uma revolução fenomenológico-transcendental da filosofia. Assim, estes artigos tornar-se-ão uma introdução autônoma à fenomenologia transcendental. O escrito nasceu da elaboração de pensamentos que constituíam o conteúdo essencial de um ciclo de conferências que eu, aderindo ao amigável convite do “Circle de Prague pour les recherches sur l’entendement humain”, realizei à metade em novembro de 1935 nas aulas cordiais da Universidade Alemã e Tcheca de Praga.

A terceira parte da “Crise” (III A e B) deveria ter sido publicada na mesma revista, em 1937, mas Husserl manteve o manuscrito para fazer algumas modificações, neles trabalhando até o manifestar-se da doença, em agosto de 1937.

O texto final foi então reconstruído, após sua morte, em base aos manuscritos de Husserl, mas o texto principal restou incompleto. Coube ao seu assistente mais próximo no momento, Eugen Fink, com quem Husserl havia discutido mais detalhadamente o trabalho, transcrever o manuscrito principal. Os manuscritos dos últimos anos ligados às questões da “Crise” foram reunidos no grupo K III[2] , classificados como “manuscritos de pesquisa”, o que significa que o texto apresenta desafios específicos, como andamento por vezes descontínuo. O fato é que os manuscritos foram publicados em sua forma original, mas reagrupados pelo organizador em conexão com o texto central que Husserl havia destinado à publicação.

Outro elemento importante é o fato que, dado o grande volume de manuscritos, a publicação foi limitada ao já citado grupo K III e, mesmo dentro desse grupo, houve uma escolha.

Ao final, a Crise talvez seja um dos textos mais complexos e intricados de Husserl, uma vez que, embora se constitua em uma introdução à fenomenologia, traz importantes inovações metodológicas, como a consideração da historicidade de maneira essencial, bem como uma ênfase particular sobre o conceito de “mundo-da-vida” (Lebenswelt). Sobre esses dois pontos retornaremos em capítulos específicos, mas para efeito desta introdução, basta antecipar que esses dois elementos, dada sua importância, constituem o centro de nossas considerações.

Estrutura da "Crise"

Band VI da Husserliana, editada pela Martinus Nijhoff, 1976

O texto completo da "Crise" utilizado neste artigo foi publicado na Band VI da Husserliana, “Die Krisis der europäishen Wissenshaften und die transzendentale Phänomenologie. Eine Einleitung in die phänomenologische Philosophie”, aos cuidados de Walter Biemel, editado pela Martinus Nijhoff em 1976 (2ª edição), sendo que todas as citações têm como base esta edição, que possui a seguinte estrutura:

  • Introdução de Walter Biemel;
  • Primeira Parte: "A crise das ciências como expressão da crise radical da vida da humanidade européia", correspondendo aos parágrafos 1 a 7;
  • Segunda Parte: "A origem do contraste moderno entre objetivismo fisicalista e subjetivismo transcendental", correspondendo aos parágrafos 8 a 27;
  • Terceira Parte: "Esclarecimento do problema transcendental e a inerente função da psicologia", a qual inclui as subpartes “A” (A via de acesso à filosofia transcendental fenomenológica por meio da reconsideração do mundo-da-vida já dado) e “B” (A via de acesso à filosofia transcendental fenomenológica a partir da psicologia), correspondendo, respectivamente, aos parágrafos 28 a 55 e 56 a 73.

Quanto aos textos anexos, estes também se subdividem em duas partes.

A parte “A” trata das “Dissertações”:

  • A primeira dissertação, intitulada "Ciência da realidade e idealização. A matematização da natureza.", remonta aos anos 1926-28 e trata do problema da idealização, o qual ocupa uma posição significativa na Crise;
  • A segunda dissertação é de 1930, e intitula-se "A atitude das ciências naturais e a atitude das ciências do espírito. Naturalismo, dualismo e psicologia psicofísica". Dedica-se a distinguir a atitude das ciências da natureza e aquela das ciências do espírito, problema que constitui o centro da parte II da Crise.
  • "A crise da humanidade européia e a filosofia", que é a conferência histórica realizada por Husserl em Viena (1935).

A parte “B” trata propriamente dos "Apêndices I a XXIX", nos quais Husserl aprofunda diversos argumentos tratados ao longo do texto principal.

Síntese Prospectiva

Merleau-Ponty, 1908-1961: A “Crise” se constitui em uma ruptura clara de Husserl em relação à sua própria filosofia.

Na seção anterior vimos como a “Crise” é um texto particularmente intrincado e, ao mesmo tempo, que apresenta um caráter inaudito dentro da obra de Husserl.

Trata-se de uma obra significativa no desenvolvimento de Husserl por causa da elaboração do conceito de “mundo-da-vida” (Lebenswelt), mas, além disso, o texto contém uma dimensão que é ainda igualmente inovadora: a consideração da historicidade na análise filosófica. Como dirá Walter Biemel em sua introdução à “Crise”: “É esta a primeira publicação na qual Husserl tome expressamente posição sobre a história e na qual trate tematicamente o problema da historicidade da filosofia”. (Hu VI, p. xviii) Husserl, porém, como vimos em sua carta endereçada à Roman Ingarden, insistirá na importância de realizar reflexões teleológico-históricas, as quais servirão como uma introdução à fenomenologia transcendental. Talvez ainda mais importante, afirma David Carr (1974), é o fato de que “ele ataca a epistemologia tradicional por pensar que pudesse ignorar a história”, insistindo que a teoria do conhecimento é uma tarefa histórica peculiar (Hu VI, p. 370).

Com isso queremos pôr em relevo que não se trata apenas de um novo modo de apresentação da fenomenologia, que mantém a sua essência inalterada, mas sim que a “Crise” faz parte de um processo de contínuo desenvolvimento (e reflexão) que Husserl faz sobre a fenomenologia, ao ponto tal que ele afirmará ter finalmente alcançado o verdadeiro início da filosofia. (Hu VI, p. xxix) Mas porque há para Husserl uma crise das ciências e de que tipo de crise se trata? Como enquadrar esta última grande obra no quadro geral das investigações de Husserl?

David Carr, autor de Phenomenology and the Problem of History, 1974.

Afirma-se, talvez tomando por base considerações de Merleau-Ponty (CARR, 1974), que a “Crise” se constitui em uma ruptura clara de Husserl em relação à sua própria filosofia, mais particularmente com relação aos aspectos de seu idealismo transcendental. Paul Ricoer (1949) falará de “repugnância da fenomenologia transcendental pelas considerações históricas”. Não estamos de pleno acordo com essa posição e apresentaremos nossos argumentos nos capítulos posteriores. De fato, entendemos que a “Crise” possui uma função clara no processo de desenvolvimento da fenomenologia. Husserl mantém-se fiel a um fim que permeia toda sua obra e, aplicando o método de análise por ele mesmo proposto na “Crise”, compreende-se que não há ruptura, mas sim avanço na direção do fim estabelecido, qual seja, a fundação da filosofia e da unidade das ciências em torno à filosofia e a elaboração do método para a redução transcendental. Nesse sentido, vale ressaltar que a Parte IV da obra, não escrita, mas citada por Fink em seus esboços, era intitulada justamente: “A idéia de que todas as ciências sejam reassumidas na unidade da filosofia transcendental.” (Hu VI, p. xxii)

No prefácio de “Phenomenelogy and the problem of history”, David Carr afirma que a abordagem histórica sistemática utilizada na “Crise” por Husserl forma uma nova parte do método fenomenológico (CARR, 1974, p. xxvi), a qual chama de “redução histórica”, entendida como uma crítica da tradição filosófica. O curioso desse método, é que ele força Husserl a criticar não apenas seus predecessores, mas também o seu próprio trabalho, em aspectos cruciais, como o próprio entendimento de “mundo”.

Nós adicionamos: a crítica dos pré-conceitos históricos e a sua relação com o método fenomenológico, em Husserl, aparecem já em “A filosofia como ciência de rigor” (Hu XXV), texto de 1911. Na conclusão do texto, Husserl afirma:

Sofremos ainda demais os preconceitos que provém do Renascimento. Para quem é realmente isento de preconceito, é indiferente que uma afirmação seja de Kant ou de Tomás d’Aquino, de Darwin ou de Aristóteles, de Helmholtz ou de Paracelso. Não é preciso insistir para que se veja com os próprios olhos: é necessário, antes, não alterar, sob a coerção dos preconceitos, o que foi visto. (Hu XXV, p. 62)

O que parece ser fundamentalmente novo na “Crise”, como dissemos, é a elaboração madura da noção de “mundo-da-vida” (Lebenswelt) e, com ela, da nova via para a redução transcendental. Husserl criticará abertamente a “via cartesiana”, expondo suas motivações[3] e, ao mesmo tempo, dará um passo importante para o desenvolvimento geral da fenomenologia, ao renovar seu método[4]: “isso determinará, de agora em diante, o método da fenomenologia transcendental” (Hu VI, p. 190). Nesse sentido, podemos então concordar com as afirmações de “ruptura”.

Husserl: É preciso dar um fundamento último à "evidência".

Para além desses significados metodológicos de agudo interesse filosófico, para compreender as ideias expostas por Husserl na “Crise”, é preciso partir daquele entendimento perene sobre o método das ciências e sobre os seus critérios de certeza, e mais ainda, é preciso entender a noção de ciência a qual Husserl se refere. Trata-se, como veremos, de uma crise de fundamentos, uma crise acerca da cientificidade das ciências, uma crise que as próprias ciências não são capazes de resolver, visto que cabe à filosofia, na visão de Husserl, resolver o problema da das ciências em seu conjunto, partindo da fundação da própria filosofia.

Do ponto de vista do método empregado pelas ciências, classicamente temos o método indutivo e o método dedutivo. O método dedutivo encontra suas origens no silogismo aristotélico (CAROTENUTO, 2007). O método indutivo, que tem seus rudimentos na maiêutica socrática, será elaborado em seus particulares por Francis Bacon, sistematizado de modo matemático por Galileu Galilei e, posteriormente levado a extremos pelo positivismo científico, que reduz o conceito de ciência àquilo que pode ser conhecido por meio desse exclusivo método. Tudo o que se pode conhecer para além do método positivista não seria científico. A crítica aos limites dessa noção de ciência é abundante. Já em 1911, Husserl chama a atenção para o fato que nas ciências matemático-físicas, a maior parte do trabalho resulta de métodos indiretos. Por conta disso, somos muito propensos a superestimar tais métodos e a desconhecer o valor das apreensões diretas (...), da intuição direta (Hu XXV, p. 62).

A questão que podemos colocar de modo preliminar é a seguinte: qual o fundamento, o critério de certeza desses dois procedimentos racionais?

Classicamente falando, o critério de certeza universal é a “evidência”. Se tomarmos o silogismo, por exemplo, este apelará, em última instância, à evidência de primeiros princípios ou axiomas, como o princípio de identidade e o princípio de não contradição. Eis que retornamos a Parmênides com “o ser é, o não ser não é”. Para alguns filósofos, como Kant, por exemplo, a lógica estaria então já devidamente “fundada”, devidamente “esgotada” naquilo que Aristóteles havia desenvolvido. Kant não se questionará sobre o que efetivamente nos consente realizar esta operação “evidente”. Irá se questionar sobre como possam ser possíveis a matemática e a física como ciências enquanto não seja possível tornar científica a metafísica (GONZÁLEZ PORTA, 2002). A matemática e a física se fundam em induções completas e incompletas, respectivamente, mas tampouco apresentam o seu fundamento. Como dar um fundamento evidente ao ponto, ao número, ao átomo etc.?

Galileu Galilei, 1564-1642.

A ciência positivista, em particular aquela que inicia com Galileu Galilei, é, para Husserl, ingênua na medida em que não se questiona sobre o fundamento de suas operações metódicas, mas também o é a lógica. Tais operações, em última instância, apelam para a evidência do operador de ciência, mas os positivistas não se perguntam o que permita realizar esta operação “evidente”. Mais ainda, a ingenuidade das ciências naturais positivas reside no fato de que elas, de fato, não se ponham como tema o problema do “ser da natureza”, não atingindo, portanto, um conhecimento rigoroso:

Deduzir não equivale a explicar. Prever, ou ainda, reconhecer e depois prever as formas objetivas da estrutura e dos corpos químicos ou físicos – tudo isso não esclarece nada, antes, tem necessidade de um esclarecimento. (Hu VI, p.193)

A resolução deste enigma, dirá Husserl, passa pela resolução do conflito entre as duas posições principais da filosofia moderna: o objetivismo fisicalista e o subjetivismo transcendental (Hu VI, Parte II, §§ 8 a 27). Não é possível resolver este conflito apelando para modelos de subjetividade postulados (Kant), nem tampouco para a “necessidade” (não demonstrada) de um objeto transcendente (Descartes). Em outras palavras, essas duas posições não souberam colocar (nem resolver), adequadamente, o “problema transcendental”. Foi preciso uma superação de pré-juízos históricos milenares, para que se empreendesse uma verdadeira análise intencional, uma fenomenologia em sentido próprio, para que se retirasse do anonimato o “mundo-da-vida” e, com isso, para que a filosofia pudesse centrar e investigar o problema transcendental. As análises histórico-teleológicas têm a função, portanto, de explicitar quais são esses pré-juízos.

René Descartes, 1596-1650: autor das célebres Meditações.

Husserl abre uma nova estrada e percorre esta estrada ao longo de sua vida de filósofo. Na “Crise”, Husserl repercorre esta estrada, analisando-a criticamente na relação com a história da filosofia, mas não apenas. Em sua última grande obra, será central não uma análise em sentido de retrospectiva histórica das principais ideias que antecederam à fenomenologia, mas no sentido de uma historicidade, a qual precisa ser desvelada para consentir, como já acenamos, uma filosofia em sentido autêntico. O tema da historicidade na “Crise”, de fato, merecerá um capítulo à parte, como um dos temas centrais deste trabalho.

O ponto de partida desse empreendimento é a reflexão sobre a profundidade não atingida por Descartes em suas Meditações. Para Husserl, Descartes chega ao portão de entrada daquele “reino de evidências originárias”, que denomina “mundo-da-vida” (Hu VI, p. 130), mas ali se paralisa por uma necessidade de demonstrar que havia, então, descoberto a alma (Hu VI, § 17 e 18). Ao contrário, afirmará Husserl, será preciso seguir adiante por esta via e percorrê-la até o fim, descrever como o mundo, que consideramos uma obviedade, de fato se constitua na subjetividade, e por meio de que operações. Husserl não se propõe a descrever esta subjetividade pura[5] – a qual chama de Ur-ich ou também pólo egológico – mas descreverá suas vivências, chegando também a afirmar que o objeto de estudo de uma psicologia verdadeiramente científica seja este “eu originário” (Ur-ich), como ele constitua o mundo, por meio de que operações e como se dê a sua relação com os outros pólos egológicos, ou seja, como seja possível a intersubjetividade (ZILLES, 1996). Outro aspecto fundamental da “Crise” é a solução para o problema crítico do conhecimento proposta pela fenomenologia transcendental. A solução deve passar necessariamente pela solução daquilo que denomina “paradoxo da subjetividade”, a qual é contemporaneamente objeto no mundo e sujeito para o mundo (Hu VI, § 53).

Na “Crise” Husserl trata de duas vias de acesso à filosofia transcendental fenomenológica: 1) a partir da reconsideração do “mundo-da-vida” já dado e 2) a partir da psicologia. A terceira parte do texto, de fato, ocupa-se da descrição dessas duas vias de acesso à filosofia transcendental fenomenológica (Hu VI, §§ 28 a 73). No que tange, porém, a via a partir da psicologia, Husserl afirmará que é necessária uma psicologia distinta daquela de Wundt, de Freud ou mesmo daquela de Brentano; esclarece quais são os limites da psicologia de seu tempo e qual deveria ser a tarefa de uma autêntica psicologia.

Sintetizando o quanto dito, podemos assim descrever a estrutura lógica da “Crise”:

  1. Fazer ciência é enfrentar o problema do ser, de um setor ou região do ser, portanto, a verdadeira compreensão científica, para Husserl, é uma compreensão filosófica, transcendental.
  2. A verdadeira “ciência rigorosa”, portanto, é a filosofia, e não a física, a matemática ou a lógica, as quais precisam de um fundamento último.
  3. A filosofia, portanto, se quer exercer o seu papel “fundante” no quadro das ciências, deve saber centrar e resolver o problema transcendental.
  4. Husserl demonstra, por meio de análises histórico-teleológicas, que o problema transcendental não havia até então sido tratado adequadamente pela filosofia. Os pré-juízos históricos ocultaram o verdadeiro problema transcendental, na medida em que ocultaram o “mundo-da-vida”, que restou um mundo anônimo de fenômenos jamais investigados.
  5. Foi preciso, na história da filosofia, o trabalho da fenomenologia, uma verdadeira análise intencional, para desvelar o “mundo-da-vida”.
  6. Husserl estudou ao longo de sua vida algumas vias para realizar a filosofia fenomenológica transcendental. Na “Crise”, supera de certo modo a assim chamada “via cartesiana”, privilegiando a via do “mundo-da-vida” e a via da “psicologia”, que, porém, não pode ser uma psicologia nos moldes das ciências objetivas exatas, uma psicologia cindida da filosofia.

Veja também

Notas

  1. Cfr. HUSSERL, Edmund. Briefe an Roman Ingarden (The Hague: Martinus Nijhoff, 1968), p. 89.
  2. K III: Manuskripte nach 1930 zur Krisisproblematik
  3. §43. Características de uma nova via para a redução em distinção à “via cartesiana”.
  4. §55. A retificação de princípio da primeira epoché por meio da redução ao ego absolutamente único e atuante.
  5. “No que tange ao ego, damo-nos conta de nos encontrarmos em uma esfera de evidência; a tentativa de ingagar para além dela, seria um não-senso”. (Hu VI, p. 192)

Bibliografia

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ZILLES, U., A crise da humanidade européia e a filosofia. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.

Siglas e abreviaturas

As seguintes siglas são adotadas para a citação das obras de Edmund Husserl, conforme a “Husserliana: Edmund Husserl Gesammelte Werke” (Husserl Archives – Leuven):

  • Hu I = Cartesianische Meditationen und Pariser Vorträge. (1991)
  • Hu III = Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Erstes Buch: Allgemeine Einführung in die reine Phänomenologie. (1976)
  • Hu IV = Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Zweites Buch: Phänomenologische Untersuchungen zur Konstitution. (1991)
  • Hu V = Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Drittes Buch: Die Phänomenologie und die Fundamente der Wissenschaften. (1971)
  • Hu VI = Die Krisis der europäishen Wissenshaften und die transzendentale Phänomenologie. Eine Einleitung in die phänomenologische Philosophie. (1976)
  • Hu VII = Erste Philosophie (1923/24). Erster Teil: Kritische Ideengeschichte. (1956)
  • Hu VIII = Erste Philosophie (1923/24). Zweiter Teil: Theorie der phänomenologischen Reduktion. (1959)
  • Hu IX = Phänomenologische Psychologie. Vorlesungen Sommersemester 1925. (1968)
  • Hu XV = Zur Phänomenologische der Intersubjektivität. Texte aus dem Nachlass. Dritter Teil: 1929-1935. (1973)
  • Hu XVII = Formale un Transzendentale Logik. Versuch einer Kritik der logischen Vernunft. Mit ergänzenden Texten. (1974)
  • Hu XVIII = Logische Untersuchungen. Erster Band: Prolegomena zur reinen Logik. Text der 1. und 2. Auflage. (1975)
  • Hu XIX = Logische Untersuchungen. Zweiter Band: Untersuchungen zur Phänomenologie und Theorie der Erkenntnis. (1984)
  • Hu XXV = Aufsätze und Vorträge (1911-1921), pp. 3-62: Philosophie als strenge Wissenschaft (1987)
  • Hu XXXII = Natur und Geist. Vorlesungen Sommersemester 1927. (2001)
  • Hu XXXIX = Die Lebenswelt. Auslegungen der vorgegebenen Welt und ihrer Konstitution. Texte aus dem Nachlass (1916-1937). (2008)
  • “Crise” = “A crise das ciências européias e a fenomenologia transcendental”.
  • “Ideias” = o conjunto da obra Hu III, Hu IV e Hu V

Citações dos manuscritos seguem a nomeclatura do “Manuscript index”, disponível no sítio dos Arquivos Husserl.

Ligações externas

Sobre o texto

  • O presente texto é um dos capítulos da Dissertação apresentada à Banca Examinadora da PUC/SP - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Filosofia, por Erico Azevedo, sob orientação do Prof. Dr. Mário Ariel González Porta, em 2011, com o título "A Crise das Ciências Européias e a Fenomenologia Transcendental de Edmund Husserl: uma apresentação".
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